segunda-feira, 17 de maio de 2010

Agrotôxicos X Vulnerabilidade das Crianças

O Dr. Cesar Koppe Grisolia, professor do departamento de Genética e Morfologia da Universidade de Brasília e autor do livro “Agrotóxicos, Mutações, Câncer e Reprodução”, relaciona os efeitos dos agrotóxicos com efeitos indesejáveis sobre o material genético, principalmente das crianças. O Dr. Cesar Koppe Grisolia desenvolve pesquisas na área de mutagênese ambiental com agrotóxicos e outros poluentes ambientais. Suas pesquisas estão publicadas nos principais periódicos da área, como “Mutation Reseach”, “Environmental and Molecular Mutagenesis”, “Ecotoxicology and Environmental Safety e Genetics and Molecular Biology”.

Transcrevo abaixo algumas citações do seu livro:

As crianças são geralmente as mais afetadas
Exposições em níveis considerados seguros para adultos podem provocar distúrbios neurológicos permanentes em crianças.”

As crianças apresentam similaridade e diferenças nos processos farmacocinéticos e de metabolização, de transformação e eliminação de substâncias químicas em relação aos adultos. Entretando, são muito mais suscetíveis aos efeitos tóxicos adversos dos agrotóxicos. Nas crianças, os principais fatores que devem ser considerados na avaliação da suscetibilidadde são:

a. Fisiológico: os fluxos respiratórios e circulatórios são mais acelerados nas crianças. As taxas de proliferação celular nos diferentes órgãos são muito maiores que nos adultos. Por isso, a absorção dérmica, intestinal e respiratória de agrotóxicos é maior que nos adultos presentes em um mesmo ambiente contaminado.

b. Metabolismo: alguns sistemas metabólicos são mais eficientes nas crianças, como a ativação da fração P-450, enquanto outros são menos eficientes, como o sistema de conjugação a xenobióticos com a glucoronidase

c. Farmacocinética: a permeabilidade das membranas facilita o transporte e o armazenamento de xenobióticos, de modo muito mais rápido e intenso nas crianças

d. Dieta: a dieta das crianças é bastante diferente dos adultos, tanto quantitativamente como qualitativamente. Em relação ao peso corpóreo, as crianças ingerem mais alimentos que os adultos.

e. Ambiente físico: o contato das crianças com o ambiente físico é diferente com relação aos adultos, pois, em razão do seu tamanho, elas estão mais próximas do chão. Seu comportamento de manuseio de objetos também é diferente, além do hábito comum de levar os abjetos à boca.

Vulnerabilidade do Sistema Nervoso Central das crianças
Durante o desenvolvimento de um organismo, ocorrem períodos de maior vulnerabilidade do Sistema Nervoso Central (SNC). Dois períodos críticos na maturação do SNC devem ser levados em conta na avaliação de risco de exposição aos agrotóxicos:

a. Desenvolvimento, na qual o cérebro toma a forma final do adulto, fase em que há multiplicação dos espongioblastos e neuroblastos, que são os precursores das células da glia e dos neurônios, respectivamente. Interferências nesse desenvolvimento, causadas por xenobióticos neurotóxicos, podem levar a malformação no cérebro

b. Crescimento do cérebro, com a maturação dos axônios e dentritos dos neurônios e o desenvolvimento de conexões neuronais, com a concomitante multiplicação das células da glia e a mielinização dos axônios dos neurônios. Esses eventos irão transformar o cérebro neonatal em um cérebro adulto. Em muitas espécies de mamíferos, tais como camundongos, ratos, cães e homem, esse segundo período crítico do desenvolvimento coincide com o período de lactação, quando os compostos organoclorados lipofílicos e alguns piretróides são transferidos da mãe para a criança via leite.

O organismo infantil tem maior facilidade para absorver substâncias tôxicas

Por causa da maior facilidade de absorção, os agrotóxicos, como qualquer outra substância tóxica, atingem mais rapidamente os diferentes compartimentos corpóreos nas crianças. Há uma diversidade de proteínas plasmáticas que se ligam aos xenobióticos para iniciar os processos de biotransformação. Entretanto, essas proteínas ligantes estão em menores quantidades em relação aos adultos. Isto faz que a meia-vida plasmática de determinados agrotóxicos seja maior nas crianças.

A exposição neonatal aos piretróides causa alterações na afinidade dos receptores nicotínicos do cérebro, modificando a atividade dos neurotransmissores.

Presença de agrotóxicos no leite materno
A presença de diferentes tipos de agrotóxicos no leite materno, especialmente os derivados de compostos clorados, pode atuar negativamente num período crítico do desenvolvimento do sistema neurológico da criança sob amamentação, causando prejuízos irreversíveis. O Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA acredita que somente o controle rigoroso de resíduos de agrotóxicos nos alimentos infantis não seja suficiente para a devida proteção das crianças, as quais já começaram a se contaminar no útero materno. O processo de desenvolvimento do cérebro humano é lento e delicado, envolvendo um procedimento de proliferação neuronal único. A exposição aos agrotóxicos nessa fase crítica implica o desenvolvimento de doenças neurológicas e o retardo mental irreparáveis.

São garantidos os dossiês sobre toxidade?
No Brasil, processos de registro ou renovação de registro de determinado agrotóxico, as empresas devem apresentar um dossiê toxicológico e cotoxicológico completos. Nesse dossiê devem constar testes de toxidade aguda, crônica, de metabolismo animal, vias de biodegradação, tipos de resíduos gerados, persistência no meio ambiente, mobilidade no solo, toxidade para organismos do solo e aquáticos, entre outros. São três principais etapas no procedimento de avaliação de segurança de agrotóxicos e os principais estudos exigidos em cada uma delas. A conjução dessa série de informações possibilita avaliar seu potencial de periculosidade ao homem e ao meio ambiente. O processo de registro completa-se após as avaliações de eficácia agronômica pelo Ministério da Agricultura, de toxidade à saúde humana pelo Ministério da Agricultura e de periculosidade ao meio ambiente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais renováveis (IBAMA), sendo o Ministério da Agricultura o órgão registrante. Até hoje, nenhum empresa enviou, em seus dossiês, testes positivos para as características mutagenicidade, carcinogenicidade e teratogenicidade que possam comprometer o processo de registro de seus produtos e provavelmente nunca o enviarão. Entretando, podem-se verificar muitos casos de contradição entre os resultados dos testes contidos nesses dossiês e os dados que se encontram na literatura científica internacional, para determinados agrotóxicos.

Fonte: Agrotóxicos, Mutações, Câncer e Reprodução (Cesar Koppe Grisolia)

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